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Uma Corrida de Formigas
Alberto Mesquita Filho
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A teoria quântica já chegou a uma conclusão: "o elétron não é como um carro". Às vezes eu penso que é justamente aí que ela se engana, mas não vou discutir este detalhe por ora. Direi apenas que a formiga também não é como um carro, e sob esse aspecto tem alguma coisa em comum com o elétron quântico. E quem sabe tenha mais alguma outra coisa!
O Cerqueira Leite é um físico e colunista de jornal. Escreve uma coluna na seção Ciência e Tecnologia que sai aos sábados na Folha de São Paulo. Alguns cientistas têm preconceito contra artigos de jornal. Pois saibam que eu aprendi muito lendo jornal e que o Cerqueira Leite escreve sobre coisas bastante interessantes. Hoje mesmo estou lendo um artigo dele sobre as andorinhas. Se o entendi bem, uma andorinha só não faz verão, mas alguns políticos fazem primavera, verão, outono e inverno. Às vezes não gosto de seus artigos, mas é só quando ele mistura ciência, política e simpatia, ou antipatia pessoal. Explico: eu não consigo ver muita diferença no que ele considera como bons ou maus políticos.
Há algum tempo, parece-me que foi em 1983, o Cerqueira Leite escreveu uma série de artigos sobre as formigas. Não sei se captei exatamente a mensagem e por dois motivos: não tenho mais o artigo e entendo muito pouco sobre formigas.
Alguns colegas de Faculdade (Será que eles ainda se lembram?) poderão dizer que estou retratando uma falsa modéstia. E antes que se levantem direi que além do que aprendi recentemente com o Cerqueira Leite e com alguns outros artigos de jornal ou revistas populares, sei apenas que as formigas são insetos e que portanto devem ter três pares de patas. Mas aprendi também a observar a natureza e, às vezes, até mesmo a me aproveitar desta observação para promover alguma euforia coletiva. Pois foi o que fiz na Faculdade, além de estudar, é claro!
De certa feita, ao conversar com um cunhado que serviu na marinha dos EUA, contou-me ele que nas horas de lazer os marujos brincavam com as formigas. Colocavam-nas no centro de uma circunferência feita com giz no chão e faziam apostas. Vencia o que tivesse apostado na primeira formiga a cruzar a marca de giz. Como disse, sou um observador da natureza e notei que as formigas de um mesmo formigueiro são muito iguais. Este método, aplicado para mais do que duas ou três formigas, daria briga assim que alguém dissesse: ¾ A formiga vencedora é a minha e não a sua! ¾ Estaríamos frente a mais um caso de incerteza?
Em pouco tempo "bolei" um formigódromo, com raias separadas por muros de madeira, numeradas e cobertas por um vidro que se encaixava no mesmo. Estava também dotado de um sistema a permitir a largada num momento exato. Pedi a um marceneiro que construísse o formigódromo, levei-o à Faculdade e durante meses foi um sucesso. Na hora do almoço a sala de bilhar virava um Jóquei-Clube, sem cavalos e nem jóqueis. Todo dia tinha pelo menos um Grande Prêmio, e ninguém queria perder o evento. As formigas recebiam nomes e no Grande Prêmio Anatomia, por exemplo, os nomes dados coincidiam com os dos assistentes de Anatomia. A azarona recebia sempre o nome do catedrático. Acho que o catedrático de Anatomia não concordou com essa escolha não aleatória e "me botou no pau". E saibam que nem as formigas protestaram. E não ficou só nisso! Se eu não sou mico de circo, estaria estudando física há mais tempo. Cheguei até, e pela primeira e única vez na vida, a estudar Direito. E os únicos que entenderam minha lógica foram o consultor jurídico da Universidade e o Professor Decourt. Os demais membros do Conselho Técnico e Administrativo da Faculdade tentaram me fazer o que fizeram com o Galileu, que chegou a ser considerado um desequilibrado malabarista de números inúteis, pela Congregação da Faculdade de Medicina da Universidade de Pisa. Chegaram mesmo a recusar a minha matrícula por três ou quatro meses. Mas eu venci e voltei. Para a alegria das formigas.
Você já deve ter notado a movimentação das formigas no solo. Seguem uma trajetória predeterminada em direção e no sentido ou do formigueiro, ou da fonte de energia. Mas se você colocar a formiga fora de seu trajeto, por exemplo, em cima da mesa, ela seguirá uma trajetória aparentemente aleatória, ou ao acaso. Você saberá de onde ela vem, mas não saberá exatamente para onde ela vai. Você conhecerá o movimento passado, mas não terá condições de determinar, graças a uma grande incerteza, o seu movimento futuro. Tal e qual um elétron no microscópio hipotético do item anterior (vide "5. Um microscópio refinado"). Pois com o Cerqueira Leite aprendi que determinadas formigas têm velocidades quantificadas; e só desenvolvem três velocidades específicas, além do repouso. Mas isso não ajuda muito, pois não sabemos qual das três ela vai "escolher" nos próximos segundos; e também não sabemos em que direção ou sentido. Pena que eu não tivesse lido este artigo há mais tempo. Já pensaram se eu tivesse conseguido "bolar" um jeito de dopar as formigas, de forma que elas só andassem em terceira? A corrida de formigas iria ser muito mais emocionante. E seria muito mais fácil predeterminar a azarona.
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