51ª. Turma  ¾  1963 a 1968

 

 

A BOLHA DO TEMPO

Luiz Giovani


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Saio do último engarrafamento da Castelo Branco e sinto que agora a estrada está livre. Faz calor, o sol bate de frente no vidro do carro enrubescendo aquela tarde cheia de nostalgia. É dezenove de setembro de 2003, um dia muito especial. Estou de olho na pista de asfalto, as aleluias aos milhares salpicam o pára-brisa: é a primavera que está chegando. Um estranho torpor toma conta de minha mente e, aos poucos, como num cinema, como se estivesse a folhear um livro de recordações, meu pensamento ameaça viajar para o passado, são cenas que busco lá na intimidade, muitas delas só minhas, tão particulares e escondidas que eu, egoísta, só as reservo para mim mesmo. Projeto-as no meu cinema paradiso e as ensaio uma a uma, ora sorrindo, ora fechando os punhos, os olhos úmidos, quem sabe até uma lagrimazinha qualquer role sem que eu a perceba.

Minha mulher lê em silêncio ao meu lado, ainda bem, pois nem sei se conseguiria mesmo ouvi-la. Imagino uma enorme bolha se aproximando de Avaré, uma bolha temporal, uma brecha incrível na linha do tempo, uma ruptura deliciosa que se abre e me convida para um fantástico mergulho de cabeça. Sim, eu estou preste a viajar para o passado, para os anos sessenta, aqueles maravilhosos anos que tanto e tão profundamente marcaram nossas vidas. Dezenas de rostos, agora jovens e cheios de energia desfilam na tela branca. Um a um vejo meus amigos passarem, até os que já se foram. Riem alto, falam sem parar (menos o Eto e o Faria, é claro), às vezes estão sérios e às vezes choram. Cada um com sua própria alegria, sua tristeza, sua paixão. 

Então, logo à frente, uma enorme placa parece preocupada com minha distração e corre a me indicar a direção a seguir, o caminho para o hotel Berro d’Água. Pressinto que muitos já chegaram e quase posso ouvir o burburinho de vozes brincando pelo salão de entrada. Aos poucos a imensa bolha colorida pelo sol da tarde abraça as dependências do hotel e nos separa do resto do mundo. Somos uma grande e única família e, acreditem, estamos no saguão de embarque. Uma voz entusiasta anuncia mais uma chegada: “Atenção, pessoal, acaba de entrar Fausto Carneiro...” Acredite se quiser. Levamos filhos, esposas, netos, genros, namoradas, enfim, qualquer um que deseje viajar conosco. Estamos excitados e eufóricos, pois a brecha na linha temporal deve durar pouco, uns dois dias talvez. Corro até a recepção, cumprimento com alguns berros o Zé Tamborim e a Dalva, toda esfuziante, alegre e receptiva. Vejo que o Gladston continua gigante ao abraçar-me gritando o consagrado “Ahahahahahah...” que significa tanta coisa, tantas palavras. Sempre foi assim, quando seguidores da 51ª turma, isso mesmo, seguidores, porque a 51ª é uma espécie de seita, de religião, uma irmandade secreta e coesa, se encontram, ouve-se ruídos estranhos por todos os lados, grunhidos primitivos de bichos que se amam. Largo as malas de qualquer jeito no imenso quarto com vista para a represa e me apresso escadaria acima ao encontro dos que chegaram. O salão está repleto, a energia contagiante das gargalhadas inunda ouvidos atentos e saudosos, enquanto abraços apertados espremem até algumas lágrimas que, às escondidas, escorrem pelos cantos das bocas sorridentes. O Samuel vem, pra variar um pouco, sorrindo: “Giovaaaa...”. Alguém corre a me apresentar um funcionário do hotel, mas não me engana: é o Osmar, que abraço espantado (meu Deus, o Osmar!). Depois, o Pereira, o Benja, o Preto, o Tiba, o Robertinho, o Picolé, o Lelau, o Mosquito, o Mesquita, o Paulinho, o Bilu e outros tantos. Um japonês com cara de bolacha me abraça forte e dá aquela risadinha famosa: “Ih, ih, ih, ih, ih! Adivinha quem está falando!” Todos estão atordoados ainda e se agitam recordando fatos e brincadeiras. O efeito da bolha é incrível, estamos na sala do sono, nos corredores do CAOC, na sala da Atlética e no bar da Faculdade; estamos na quadra de futebol de salão, na piscina e na casa do estudante. 

Somos jovens outra vez, caramba!

“Estão bem acomodados? Não está faltando nada? Olhe, teremos surpresas no jantar!” O Zé Tamborim zela por tudo e por todos, nada pode sair errado. “Valeu a viagem!” De repente surge do nada o Kiti e fala uma merda qualquer, sem nunca se desfazer do copo: “Adivinha quem está aqui, o Manreza, cara!” “Você já viu o Fausto?” Estou tão atônito que mal percebo minha mulher esquecida ainda no saguão de entrada. Todos os relógios pararam. O mundo lá fora da bolha não existe para nós. Afinal, a 51ª família está reunida outra vez. O Berro d’Água parece mais uma caldeira a vapor, em franca ebulição. Misturo-me aos amigos com a naturalidade dos irmãos. Pode parecer doidice minha, mas tenho a nítida sensação da presença do Taka e do Jaime César, do Lincoln e da Rosinha... Não existe passado nem presente nem futuro. Estamos felizes.

Alguém chama para o jantar: vamos para as Arábias com direito a bailarinas, quibes, umbigos de fora, esfihas, quadris que tremem mais que nossas mãos. É claro que o Bilu corre logo para dançar no meio delas (se tivesse dólares, perderia todos...). Meu, que festa! E o Chico Greco, vem ou não vem? E a Boneca? O Bolinha? Zé Tamborim se apressa a explicar: “Convidei todos...” De repente, surge o Buda pedindo para ser currado. Está mais magro e nem deu muita tesão: “Rôtokê wa, sekai ni, atikoti arukmashtá...” Sou puxado para uma das mesas pelo Cisneiros que me apresenta seu filho, velho conhecido de muitos anos que me olhava de dentro de uma incubadora do Infantil Sabará. Estou na mesa com o Lelau e o Zé quando chega um estranho, sei que o conheço, mas não me lembro do nome. Claro que o Lelau também não o reconhece e logo o empurra para mim: “Este é o Giovani...” E eu: “E este é o Lelau!” Depois de alguns segundos nos abraçamos: é o Eurico.

Após o jantar forma-se a tradicional roda de cadeiras: embarcamos na viagem à Europa, dormimos na casa do estudante e cochilamos na sala do sono. No Velho Continente o Buda grita para o italiano: “Não, benzina não, gasolina, gasolina...” E o Jusça na zona de Prudente: “Não comi, mas tirei o maior sarro!”. As gargalhadas ecoam dentro da bolha. Somente nós as ouvimos, ninguém mais. O Mitsuro está na cadeira lá do fundo e tenta fazer alguma gozação comigo: “Olha que eu guardo rancor...”. Esforça-se, mas não o escutamos.

Então aparece um frutinha com microfone na mão e convida todos para brincadeiras sem saber que brincamos há quarenta e tantos anos. Dança, rebola e tenta deixar alguém sem graça, encabulado. É a contratação do Zé Tamborim, que deixa o pessoal meio desconfiado ao vê-lo também sacudindo os quadris com a mãozinha na cabeça: “Meu Deus, será que o Zé desmunhecou...” O filho do Bilu é cópia fiel do pai: acho que um dia vai perder muitos dólares também em alguma boate. A festa está animada, mas o cansaço é grande demais assim como o quarto que estamos e chamo minha mulher para um merecido descanso: o dia amanhã será cheio, é preciso recuperar energias.

Sabato matina pulo da cama e corro para abrir a cortina e me deslumbrar com o dia maravilhoso, a represa em frente, a passarinhada nos chamando. Da janela sonho ver o Georgino sozinho passeando na beira da represa. Até chegar no restaurante para o café, temos que passar pela piscina da atlética (será realidade?). O Lelau e a Marisa nos acompanham. Adivinhem quem está estirado numa cadeira tomando sol? O Lelau não perde a chance: ”Aí, heim Osmar, pegando uma corzinha?”

E pulando de mesa em mesa vou engolindo meu café enquanto sorrio, falo muito e abraço os que ainda não vi. O Zé avisa: “Tem surpresa na piscina!” E lá, após o café, aos poucos todos se aproximam formando a roda em volta do chope. De repente vejo alguém muito grande mergulhando, alguém que não via há pelo menos trinta e cinco anos: Ricardo Yamim, o turco. Cabelos brancos (poucos!), discreta barriga, aquele nariz avantajado e o mesmo olhar de sempre, igualzinho ao de todos, olhares que não envelheceram. O Ivan passeia em volta da piscina, a barriga enorme projetando a sombra redonda na pedra. Robertinho Vilardo berra: “Larga a bóia e pula, Ivan!” Onde estará seu pensamento? Nas Torres Gêmeas? Mas isso não importa, estamos na bolha e o tempo não existe.

Zé Tamborim passa, anunciando a chegada das mulatas. Começa o pagodão enquanto aumenta a fila do barril de chope. Imediatamente a família Bilu entra no samba e exercita alguns passos desajeitados ao lado das duas mulatas. De início a euforia toma conta, aplausos e gritos tentam aflorar a juventude que se foi, mas aos poucos as canecas de chope falam mais alto e as morenas rebolam suadas e sozinhas sob o sol escaldante. São jovens e lindas e seriam objeto de disputa acirrada nos anos sessenta.

A turma do tênis começa a chegar: Danilo, Samuel, Lair, Mosquito e Fábio. O filho do Samuel é bem maior que ele, só que não dá risada como o pai, apenas sorri discretamente. Observo o chefe Yamada que me pergunta novamente: “Pô, e o Greco, não vem mesmo?” “E o Perrone?”

Depois vem o Preto exibindo com orgulho sua linda filha, coitada, também vai ser médica. Nessas alturas o Osmar e o Kiti já estão meio bêbedos, falam pelos cotovelos, riem muito e estão felizes. Alguém pede: “E aí, Osmar, faz um discursinho pra gente entrar em greve...” Estamos na sala do sono, o ano 1963 e tem muita agitação lá fora. O Boanerges perde a eleição para presidente do CAOC. Aliás, o Bergel vem ou não vem?

Num canto ao lado do bar, o Mena conversa com o Benê, o Mesquita, o Benja e mais alguns. Estão preocupados com os que partiram mais cedo. Conhecíamos seus problemas, suas angústias? Poderíamos ter feito algo? E se os tivéssemos procurado e oferecido nosso abraço? A turma precisa de um meio de comunicação fácil, através do qual todos saberiam de todos. Então o Mesquita sugere uma página na internet: a página da 51ª.

O almoço do sábado é maravilhoso: a família está reunida na mesa, a 51ª família. E à tarde, tem racha? Claro que sim, o Lelau confirma, o Preto acena com a cabeça, o Benja sorri. Enxerta-se com alguns filhos boleiros, namorados de filhas, empregados do hotel e pronto, a gente põe a molecada pra correr. Aliás, o garoto da incubadora é muito bom e dá olé nos velhos que um dia também deram cambalhotas e lençóis.

Novamente Zé Tamborim e Dalva, exuberante, avisam que o melhor ainda está por vir: teremos show noturno, brincadeiras e jantar italiano. Outra vez está formada a roda de cadeiras antes do jantar. Conta-se as mesmas estórias, ri-se das mesmas coisas, vive-se de novo as mesmas paixões. A energia é tão intensa, as vibrações pulsam no exato comprimento de ondas dentro da bolha. Ali está o passado, remotíssimo e ao mesmo tempo no alcance das nossas mãos. Que maravilhoso fenômeno nos faz retroceder pelo caminho que sabemos não ter volta.

Finalmente o esperado jantar do sábado, com mil brincadeiras já na fila do self service. Dezenas de flashes imortalizam as cenas do restaurante. O Gigante não para de detoná-los, querendo guardar para sempre todos os mínimos detalhes, as expressões dos rostos, os olhares, os gestos. Ele nada perde, corre de mesa em mesa e em silêncio fotografa seus amigos.

Então Zé Tamborim se apresenta no centro do salão e pede silêncio. Todos se voltam para ele na expectativa do que está por vir. Começa a homenagem para os que se foram, e que na realidade flutuam ali mesmo conosco, naquele momento. Animados, participam da festa, passeiam entre nós, gesticulam e se divertem. O nome de cada um deles ecoa tristemente pelo restaurante emudecido. Mitsuro Takejima olha para o Ceguinho ao seu lado sem entender a tristeza dos amigos, a Rosa está sentada ao fundo conversando animadamente com o Lincoln, o Georgino postado junto à soleira, João Modesto fumando no canto, Santo Cosenza numa das mesas e mais o Marco Antonio, a Katalin, o Jaime, o Pasqualin, o Walter, o Tsutomu, o Dedo e o Gonga. Nossas gargantas sofrem com um duro aperto em forma de nó cego e que machuca demais. Como é difícil segurar o choro. Mas Zé Tamborim sabe disso e dá seqüência ao show anunciando a distribuição de brindes. Meu Deus, são mimos em forma de remédio, um bálsamo para nossas dores: e dentro de cada tubo, uma jóia em forma de pergaminho, uma miniatura de valor incalculável, bem enroladinha em cama de algodão. O discurso de formatura do Georgino. Nada poderia ser mais precioso, mais desejado pelos membros da 51ª família. Nenhum valor no mundo seria capaz de substituir aquele pequenino canudo de papel, nenhuma pedra, diamante algum brilharia tanto.

Após o jantar, aos poucos, chegamos em direção ao palco montado lá fora, um teatro à nossa espera. O festeiro grita no microfone, faz brincadeiras entrevistando cada escolhido: filhas e filhos, sobrinhas, primos, até chegar o Tiba que é logo agarrado pela bichinha empolgada com a fama do Saru. Aperta sua cabeça demoradamente no peito do Içami, tira fotos e tudo o mais, aliás, não é qualquer um que se aconchega em peito tão famoso. Vez por outra Zé Tamborim rebola no salão (meu Deus, de novo!..). Alguns casais arriscam passos de forró, que se misturam aos boleros, que se transformam em Ray Conniff e canções italianas. Afinal hoje é sábado, dia de Esqueleto’s. A sala do sono está com altos níveis de testosterona e estrógeno, os rostos quentes se roçam levemente, as bocas secas imploram por um cuba-libre.

De repente, o Ivan é chamado para mergulhar na gruta azul. Colocam em sua cabeça um enorme chapéu mexicano, uma blusa apertada e ele, como quem não quer nada, olha fixamente para o rapaz, contrai a barriga protrusa e deixa cair a calça do abrigo, mostrando a cueca preta. O boiolinha urra de emoção.

Então um grupo passa quase sem ser percebido e sou convidado para o tradicional jogo de cartas. Tenho a nítida sensação de ser o Boca quem o faz, a cutelaria japonesa está em ação outra vez. Estão indo para a casa do estudante e certamente irão varar a noite no baralho, com ou sem Janaína.

Começa a se fechar a brecha do tempo. É domingo, com sol muito forte e os ânimos já nem tanto. A última e grande roda de cadeiras se agrega ao lado do restaurante. Os rostos estão mais serenos, as falas mais pausadas, os gestos mais lentos. Outras estórias são contadas, tantas vezes já ouvidas. Familiares se juntam à roda e se divertem conosco numa contagiante comunhão de pensamentos. Chega o almoço, o filme parece estar chegando ao fim. Mas não, um novo grito anuncia a entrada de Jorge Kawamura para o interior da bolha. Óculos na face pouco envelhecida, sorriso emocionado, ele é inserido no meio da roda onde tenta, em vão, reconhecer os velhos companheiros. Sou apresentado como sendo o Greco, então ele me abraça forte: “Greco, que saudades!” As gargalhadas fazem-no perceber o engano. E assim, um a um, os rostos vão se tornando novamente familiares.

Alguém olha para o relógio. É o primeiro sinal do fim da ruptura na linha temporal, a bolha amiga começa a se desfazer. Banhos de chuveiro, malas prontas, acertos de conta. Já não se ri como antes, porém os olhares francos convidam para abraços fraternos muito apertados, até com direito a alguns beijos tímidos.

“Vamos nos encontrar de dois em dois anos!” É Zé Tamborim quem o diz. Sua voz está mais distante, a Dalva o confirma e todos repetem em coro: “É isso mesmo, daqui a dois anos!”

As bolhas do tempo vagam pelo espaço imaginário. Oxalá durassem para sempre, mas são tênues, frágeis e se rompem facilmente. São bolhas de sabão.

 

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