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Discurso de Formatura da 51ª. Turma da
Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo
Georgino Nissan
Não brindamos a sorte
nem a morte
nem a vida que salvamos
nem a vida que vivemos
nem o fruto que colhemos
nem a glória que almejamosNão brindamos mistérios que solvemos
Já não temos o calor com que iniciamos
nem parte do ideal com que ingressamos
há seis anos, felizes crianças iludidas
pela falsa auréola dita sacerdócio;
agora, sem disfarce, nestas despedidas,
trazemos a frieza em que nos envolveram
aqueles, nos quais, tão ingênuos confiamos.Buscamos templo sagrado
de ideal sem misticismo;
vimos na Escola agregado
um hierárquico egoismo
mascarado em falso heroismo!É bem outra a nossa festa ¾ vamos brindar seis anos de
amizades
nascidas de fértil casualidade
crescidas na luta, na angústia,
por vezes no desespêro;
firmadas na revolta,
no apoio mútuo para a resistência,
no afrontar à negligência
de quem se quer olvidar
que a Escola, qual seja ela,
tem por missão ensinar.Pela poeira senil de nossa estrada, vimos chão, cirurgias,
doentes, escadas, cortinas, tapetes, tudo infiltrado e
carimbado de famigerados egos!
O meu, o dele, os de todos, todos deles, ...
dos deuses da hierarquia! Hierárquica nostalgia!...
Nosso eu não existia. Éramos um nada muito pobre a ocupar
espaço muito nobre de nobres cientistas fosfóricos, teóricos,
retóricos, modernistas tradicionais de 1901.Nossa Escola, num saudoso forte de relíquias transformaram;
novas idéias, novas luzes, nova gente, gente nossa massacraram!
Em nosso hospital, um centro de formação de neuróticos sado-masoquistas planejaram!A bondade, a expontaneidade, o sorriso, a sinceridade combateram.
Invejando nosso futuro, nossa mocidade,
A um comprimento, respondia a hostilidade.
Dialogaram conosco com metralha em punho!
Com metralha jogaram-nos na rua com nossos pertences.
No dia do terceiro transplante reuniram-se para nos apedrejar
como criminosos, vítimas de seus ensinamentos!
Triste, megera e triste a realidade
tentaram por atos, fatos e maltratos nos desencorajar
nossa ignorância gritaram!
nossos erros arquivaram!
nosso direito esmagaram!
nosso ideal desprezaram!Nossas diretrizes traçaram à nossa revelia e nós pagamos
pelos erros de nossos opressores.
Senhores, nossa festa é uma afronta!
a nossa gargalhada, o nosso sarcasmo
aos que direta ou indiretamente
tentaram inùtilmente levar-nos ao marasmo
edificando barreiras à nossa frente.Ouvimos, admitimos, humilhamo-nos, mas lutamos,
e...eis-nos aqui...é esta a nossa festa! ...
o fim de uma nojenta batalha festejamos! ...
nossa guerra continua ...Sublime e ingênuo o engano dos nossos queridos pais:
festejaram por seis anos;
Gratos somos à sua ingenuidade que foi o sustentáculo de nossa resistência ¾ lutamos para não decepcioná-los.Extremamente raras e benditas as mãos que nos guiaram.
Agradecidos somos a poucos que um pouco nos compreenderam; a tão poucos, toda a nossa homenagem, pelo pouco que aprendemos.
$
Foi terrível nossa guerra!
Por tanto mais que mais sofremos
quando nesta hora lembramos
que tres colegas que amamos
trágicamente perdemos.
Valter Mauro, Mitsuro Takegima e Antônio FugiiViveram conosco, conosco lutaram,
conosco sentiram injustiças, privações, hipócritas opressões!
lutaram confiantes neste dia, no rever do colorido que em
verdade a vida encerra,
mas a morte os recolheu, partidária de nossos opressores,
a morte os tombou por terra!
A tão queridos saudosos, o nosso lamento.$
Quem somos nós, agora diplomados?
Elite privilegiada para a qual todo o pais abriu mão?
Enfeites da Pátria, robôs enfeitados?
... o leite, o suor e a fome do povo nos alimentou.
sua doença, seu sangue, seu cadaver, o povo nos doou.Promíscua, infecta, faminta e miserável, a população brasileira espera de nós alguma recompensa: não nos querem para as mãos de suas filhas, nem nossa cultura para exposição. Querem ação!
Mas, nossas mãos estão amarradas! nossas mágicas mãos, divinas, como querem os idiotas apaixonados pelas próprias, estão acorrentadas pela trágico-cômica estrutura sócio-econômica do país.A morte sobrevoa a imensa terra brasileira;
gargalha insaciada, ao ver-nos diplomados;
¾ Que podem contra mim, pobres coitados,
se do governo brasileiro sou parceira?A Medicina, na vóz senil intransigente,
resignada por si, nos diz contente:
¾ que habitem casas de barro,
não se combata o “barbeiro”
que se infeste o brasileiro!
Por que combater o Chagas?
Que fique a morte onde está!
nós temos nova Ciência,
que não olha prá consciência,
... que chamem Dr. Barnard!
Gritamos acorrentados: veja, é fácil, ensine e alimente;
que do pobre a Medicina não se ausente!
combata a desnutrição,
trabalha o povo e lucra a Nação!
Pois vamos fazer reformas!
vamos fazer prevenção!
Gritem livres as indústrias farmacêuticas: onde irá nossa produção? E bradam de braços dados, a morte, o governo e o estrangeiro:
¾ Manteremos a miséria, e guerra à subversão!A espôsa do presidente, num gesto assaz comovente,
à Imprensa se declarou: - Oh, que trágica verdade!
disseram-me, crueldade,
que no Brasil,
é estarrecedora a mortalidade infantil!
que tristeza, malvadeza,
nunca perdoarei quem me informou! ...
Senhores, o Brasil é uma comédia, mas nem todos podem rir.
Diàriamente, à nossa frente, desfilam crianças tristonhas,
Famintas, esquálidas, medonhas, com ar de quem já não sente;
São de São Paulo – o maior parque industrial da América Latina!
que diremos das outras?
São levadas provàvelmente por qualquer brisa para a morte ...
e nós vimos, são queimadas como gado na sêca do norte!
E a nossa missão consciente está neste povo, no seu viver tão
pungente...
na gente que diz prá gente que é urgente comer!
gente que pede à gente que não os deixe morrer!
gente que vive e não vive,
que morre e não morre,
não sabe se vive,
não sabe se morre.
É gente que grita, que clama, que grita,
que clama e que grita
mas grita em silêncio,
por forças não ter ...
E é massa de gente da terra da gente que pode o viver,
que pode um lutar com rumo, com sorte,
sem peste, sem morte,
sem fome e miséria,
quer seja do leste, quer seja do norte!
O que podemos nós por essa gente a quem devemos?
Não há cirurgia para a fome nem antibiótico contra a miséria!
O govêrno, num ciclo vicioso, ocioso e malicioso, gasta bilhões com as doenças de alguns para não gastar milhões prevenindo as de todos.
Melhor, é convencermos nossas consciências a se conformarem com os ais...
e vamos ser médicos como todos os profissionais!
e vamos ser deputados para tomarmos banho turco na Assembléia legislativa!...
e vamos ser cientistas crônicos e anacrônicos, para pesquisarmos a côr das calças do bacilo do tétano ou as crises histéricas da Escherichia coli...
O mal se assesta em verdade,
na inculta mentalidade
de nossa gente enganada
que não sabe que é explorada ;
que pensa alegrar o pobre
com ingênuo gesto nobre
de um cobertor de Natal
pela Liga das Senhoras Menopausadas!
Que usa a grande verba da Nação
em joguetes de canhão
e tiros de festim verde-oliva
e ordem-unida da mesma côr,
para tirar o bolor de sua existência inútil.
Que fuzila o estudante brasileiro para defender a canalha estrangeira!
Senhores, perdoem-nos, não pudemos trazer aqui um regosijo falso. Lembramos de quando nada sabíamos e percebemos como é triste abrir os olhos para a realidade, como é penoso abraçar uma virtude honesta!
Por isso, o cantar do estudante é dito subversivo;
por isso o nosso cantar é dito subversivo: ¾
Quem de longe canta a terra
inspirado na saudade,
esquece toda a maldade,
só canta o bem que ela encerra.Meu cantar é diferente,
porque ouço dores de morte
da gente de negra sorte
que alegria nunca sente.Que vale o campo dourado
que a esta terra sustentou
se aquele que o semeou
não passa de escravizado?Este é o nosso camponês,
nascido num lar infecto,
sem Ter na vida um projeto
que o tire da pequenês.Não tem chão, não tem cultura,
trabalha sem ter proveito,
só espera ter seu direito
no mundo da sepultura.Canto o ciclo da tristeza:
não “nostálgica alvorada”,
não “saudosa Pátria amada”,
mas as chagas da pobreza.Cresce a indústria e a produção
do vil latifundiário,
vive à mingua o operário,
veste trapo o tecelão.No mundo projeta o nome
nosso hospital altaneiro,
que transplanta um brasileiro
prá cada milhão que morre!Como cantar a beleza
das praias, dos verdes mares,
das montanhas, dos palmares,
se o homem chora a incerteza?Só canta o bem a canção
de quem não sente esta terra,
de quem não vive esta guerra,
de quem não tem coração!Por nossos corações,
não brindamos a sorte, nem a morte,
nem a vida que salvamos,
nem a vida que vivemos,
nem o fruto que colhemos,
nem a glória que almejamos.$
Disto tudo ...levados em nós,
continuaremos ...
Com os olhos fundos da Carolina ...
guardaremos ...
e em vivas rodas carregaremos.Nos despediremos da boca da noite
... e com a banda,
acompanharemos o Sabiá do dia.Num pálido sorriso de esfôrço,
subiremos
e deles, sem nos volver,
esqueceremos ...Conosco mesmos
lembraremos daqueles últimos,
já despedidos
e choraremos.De todos os bons,
jamais olvidaremosE partiremos em busca do amor das rosas
prá conhecer as Margaridas, Helenas,
Berenices, Marilenas ...E quando,
libertos do espírito,
desprovidos do mundo,
num último impulso nos abraçaremos
... e morreremos longeesplendidamente longe...
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